segunda-feira, 28 de julho de 2014

Novo livro - Keto Clarity

É difícil explicar a importância de Jimmy Moore no mundo low carb. Jimmy, aos 32 anos de idade, pesava 185 Kg. Já tinha tentado dietas low fat e de baixa caloria sem sucesso. Foi quando lhe deram de presente o livro do Dr. Atkins. Um ano depois, Jimmy havia perdido 80 kg, e deixado de usar várias medicações - uma experiência que MUITOS leitores deste blog conhecem de perto.



Isso já faz 10 anos. Jimmy Moore decidiu divulgar sua experiência para o mundo através de um blog, que tornou-se referência para todos no mundo low carb, o Livin' la Vida Low-Carb. Estamos falando de uma era anterior à das redes sociais, quando blogs ainda eram coisas muito novas. Jimmy foi um pioneiro. Logo veio o Podcast Livin' la Vida Low-Carb, no qual Jimmy entrevistou, no decorrer desses anos, todo mundo (eu disse TODO MUNDO) na esfera low carb e páleo (e também pessoas que discordam frontalmente disso tudo, o que mostra que trata-se de pessoa de mente admiravelmente aberta). No dia de hoje, Jimmy tem uma biblioteca de inacreditáveis 847 entrevistas, todas disponíveis em áudio (e que aumenta a cada semana). É uma obra inestimável.

Com toda a estatura que adquiriu no meio low-carb, Jimmy segue sendo uma pessoa extremamente humilde e acessível, que responde à totalidade dos emails (e em poucos segundos, não sei como consegue!). Abaixo, um vídeo onde se percebe sua simpatia característica:

Vídeo gravado pelo Rodrigo Kherlakian do videocast MojoJá 
O Rodrigo é nosso Jimmy Moore brasileiro)

Foi com muita satisfação que tive a grata surpresa de ser contatado por Jimmy Moore para receber - em primeira mão - uma cópia de seu mais novo livro: Keto Clarity, que ainda está para ser lançado no próximo dia 05 de agosto de 2014. Jimmy valeu-se daquilo que tem de melhor - CONTATO com TODOS os mais importantes autores do mundo páleo/low carb - para escrever o livro definitivo sobre dieta cetogênica.

Veja, eu já disse aqui no blog e repito que não é necessário fazer uma dieta cetogênica para perder peso. Dito isso, há situações nas quais essa abordagem é muito interessante - diabetes tipo 2, síndrome metabólica severa, obesidade, epilepsia, entre outras. E se você pretende embarcar nessa experiência, esse é o livro:



Escrito juntamente com o Dr. Eric Westman, professor da Duke University, Keto Clarity: Your Definitive Guide to the Benefits of a Low-Carb, High-Fat Diet conta com a colaboração de diversos autores, entre eles William Davis, Nora Gedgaudas, Ben Greenfield, John Kiefer, Bill Lagakos, David Perlmutter, Ron Rosendale, Terry Wahls, entre outros.

O livro explica o que é a cetose e sua diferença com a cetoacidose, explica como proceder para montar sua estratégia alimentar, como medir a cetose no sangue, etc., em DETALHES.

Alguns pontos altos são as listas, em forma de perguntas e repostas (FAQ's):

-> Porque você não está conseguindo ficar em cetose (e o que fazer para resolver)?
-> Lista de críticas à dieta cetogênica (e respostas cientificamente embasadas);
-> 3 capítulos muitos bons, divididos em: 1) ciência sólida para indicar dieta cetogênica,  2) áreas em que há boa evidência e 3) áreas em que há novas evidências de que talvez haja benefício (um dos raros livros que diferencia claramente o que está estabelecido, e o que ainda especulativo).

Aproveite ainda para conhecer o Cholesterol Clarity, o livro, no mesmo formato, que desmistifica as questões relacionadas ao colesterol:

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Robb Wolf, Loren Cordain e Taubes em espanhol

O Português, como sabemos, é um deserto editorial. Afora livros de autoajuda, pouca coisa chega às nossas prateleiras. Além, é claro, das matérias das revistas nacionais, escritas por jornalistas que não são do ramo, entrevistando "especialistas" que também só leram o pouco que por aqui se divulga.

Das dezenas de livros sobre low carb e páleo, apenas DOIS ganharam versão em português: Barriga de Trigo e a Dieta da Mente. Os melhores livros permanecem em inglês.

Durante o Império Romano, todos tinham que falar latim. Hoje, sugiro que aprendam inglês, se não quiserem ficar COMPLETAMENTE à margem. Não é justo, mas é uma realidade.

Mas há uma esperança (obrigado ao leitor Alessandro Amaral pela dica): edições em espanhol. Para quem ainda não domina o inglês, seguem algumas sugestões:

Eis a versão em espanhol do Paleo Solution, de Robb Wolf (clique nas imagens para comprar):




O Paleo Diet, de Loren Cordain, também está disponível:



O New Atkins for a New You, que é a dieta Atkins atualizada por 3 grandes autores:




Até mesmo o livro Why We Get Fat, de Gary Taubes, o livro que me fez começar a estudar o assunto e me estimulou a escrever esse blog, existe em espanhol (embora não para Kindle, e precise ser comprado na Amazon espanhola - clique aqui ou na imagem abaixo):



Então, enquanto você se matricula no inglês, vá lendo esses títulos em espanhol. Bem melhor do que aguardar por versões nacionais que, infelizmente, talvez nunca venham.

Se você encontrar algum outro livro importante em espanhol, me avise para que eu possa atualizar a lista.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Gordura Saturada - Revista Men's Health

Em novembro de 2012, quando traduzi o artigo abaixo, não sabia ainda quem era Nina Teicholz. Mas o comentário que fiz à época continua atual: "Nunca li nada tão bom na mídia de massa".

Pois bem, hoje entendo toda essa qualidade: ela é a autora do que considero o livro mais importante sobre nutrição e saúde da década.

Clique no na capa do livro para comprar:



Para quem quer um brevíssimo resumo da obra, segue o artigo abaixo:

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Nunca li nada tão bom na mídia de massa. Sério. Mas, como sempre, é em inglês... A qualidade do texto, no entanto, me estimulou a traduzi-lo. Aproveitem!
http://www.menshealth.com/health/saturated-fat?fullpage=true

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E se a gordura na verdade for boa para você?
Por Nina Teicholz, 10 de outubro de 2007

Por décadas, os americanos têm aprendido que a gordura saturada entope as artérias e causa doença cardíaca. Só tem um problema: ninguém jamais provou isso.


Suponha que você fosse forçado a viver com uma dieta apenas de carne vermelha e leite integral. Uma dieta que, ao todo, fosse pelo menos 60% gordura - e em torno de metade desta, saturada. Se os seus primeiros pensamentos são estatinas (remédios para colesterol) e stents cardíacos, você deveria considerar o curioso caso dos Masai, uma tribo nômade do Quênia e Tanzânia.

Nos anos 60, um cientista da Universidade de Vanderbilt chamado George Mann descobriu que os homens Masai consumiam exatamente esta dieta (suplementada com sangue do gado pastoreado por eles). E, no entanto, estes nômades, que também eram bastante magros, tinham os menores níveis de colesterol jamais mensurados e eram virtualmente livres de doenças cardíacas.

Os cientistas, confusos pelo achado, argumentaram que esta tribo deveria ter alguma proteção genética especial contra o colesterol alto. Mas quando pesquisadores Britânicos monitoraram um grupo de homens Masai que mudaram-se para Nairobi (cidade grande) e começaram a consumir uma dieta de estilo moderno, descobriram que o colesterol dos mesmos disparou.

Observações similares foram feitas a respeito dos Samburu - outra tribo queniana - assim como dos Fulani da Nigéria. Embora os achados destas culturas pareça contradizer o fato de que comer gordura saturada leva à doença cardíaca, você pode se surpreender em descobrir que este “fato” está longe de ser um fato comprovado. Ele é na verdade uma hipótese dos anos 1950 que jamais foi provada.

O primeiro indiciamento científico da gordura saturada veio em 1953. Foi neste ano que um fisiologista chamado Ancel Keys publicou um artigo muito influente intitulado “Aterosclerose, um problema para a nova saúde pública”. Keys escreveu que, enquanto a taxa de mortalidade total dos EUA declinava, o  número de mortes por doença cardíaca vinha aumentando constantemente e, para explicar o porquê, ele apresentou uma comparação do consumo de gordura e da mortalidade por doença cardíaca em 6 países: Estados Unidos, Canadá, Austrália, Inglaterra, Itália e Japão. Os americanos comiam a maior quantidade de gordura e tinham a maior mortalidade cardíaca; os japoneses consumiam a menor quantidade de gordura e tinham a menor mortalidade cardíaca. Os demais países encaixavam-se convenientemente entre os dois. Quanto maior o consumo de gordura (de acordo com levantamentos nacionais), maior a taxa de doença cardíaca. E vice-versa. Keys achou que esta correlação era, em suas palavras, “notável” e começou a tornar pública sua hipótese de que o consumo de gordura causava doença cardíaca. Esta hipótese ficou conhecida como a “Hipótese Dieta-Coração” (“Diet-Heart Hypothesis”).

Na época, um grande número de cientistas era cético quanto às afirmações de Keys. Um destes críticos foi Jacob Yerushalmy, fundador do Curso de Graduação em Bioestatística da Universidade de Califórnia em Berkeley. Em um artigo de 1957, Yerushalmy indicou que, embora os dados de 6 países examinados por Keys parecessem dar suporte à Hipótese Dieta-Coração, havia na verdade estatísticas disponíveis sobre 22 países. E, quando todos os 22 países eram analisados, a conexão aparente entre o consumo de gordura e doença cardíaca desaparecia. Por exemplo, a taxa de mortalidade por doenças cardíacas na Finlândia era era 24 vezes maior do que no México, muito embora o consumo de gordura nas duas nações fosse similar.

A outra crítica saliente do estudo de Keys foi que ele havia observado apenas uma correlação entre dois fenômenos, e não uma clara conexão causal. Isto abria a possibilidade de que alguma outra coisa - não medida ou mesmo nem imaginada - estivesse levando à doença cardíaca. Afinal, os americanos de fato comiam mais gordura do que os japoneses, mas quem sabe eles também consumissem mais açúcar e pão branco, e assistissem mais televisão.

A despeito destas falhas aparentes nos argumentos de Keys, a Hipótese Dieta-Coração era convincente e logo passou a ser fortemente promovida pela Associação Americana de Cardiologia (AHA) e pela mídia. Ela oferecia para o público preocupado uma tentativa de explicação razoável de por que o país encontrava-se em meio à uma epidemia de doenças do coração. “As pessoas devem conhecer os fatos”, disse Keys em uma entrevista de 1961 à revista Time, cuja  capa ele ilustrava. “Então, se quiserem comer até morrer, deixe-os.”

O estudo dos sete países, publicado em 1970 é considerado o grande triunfo de Ancel Keys. Ele parece emprestar mais credibilidade à Hipótese Dieta-Coração. Neste estudo, Keys relata que em 7 países que ele selecionou - EUA, Japão, Itália, Grécia, Iugoslávia, Finlândia e Holanda - o consumo de gordura animal era um forte preditor de ataques cardíacos em um período de 5 anos. Igualmente importante, ele observou uma associação entre colesterol total e mortalidade por doença cardíaca. Isto o levou a concluir que a gordura saturada dos alimentos de origem animal - e não outros tipos de gordura - aumentava o colesterol e acabava por levar à doença cardíaca.

Naturalmente, os defensores da Hipótese Dieta-Coração alardearam o estudo como prova de que consumir gordura saturada levava a ataques cardíacos. Mas os dados estavam longe de ser sólidos. Isso por que em três países (Finlândia, Grécia e Iugoslávia), a correlação não existia. Por exemplo,  o leste da Finlândia tinha 5 vez mais ataques cardíacos fatais e quase o dobro de doença cardíaca que o oeste da Finlândia, a despeito da grande semelhança do consumo de gordura animal e dos níveis de colesterol entre as duas regiões. E, embora estes dados constassem em forma de tabela no referido estudo, Keys deixou de mencioná-los em suas conclusões. Talvez o maior problema fosse, contudo, sua presunção de que a gordura saturada tivesse um efeito deletério sobre os níveis de colesterol.

Embora existam mais de uma dúzia de tipos de gordura saturada, os humanos consomem predominantemente três: ácido esteárico, ácido palmítico e ácido láurico. Este trio compreende quase 95% da gordura saturada de um pedaço de costela, uma fatia de bacon ou de um pedaço de pele de galinha, e quase 70% daquela na manteiga e no leite integral.

Hoje, está bem estabelecido que o ácido esteárico não tem nenhum efeito nos níveis de colesterol. Em verdade, o ácido esteárico - que é encontrado em grande quantidade no cacau assim como na gordura animal - é convertido no fígado em uma gordura monoinsaturada chamada ácido oleico. Esta é a mesma gordura cardioprotetora encontrada no azeite de oliva. Como resultado, os cientistas geralmente consideram este ácido graxo saturado como ou benigno ou mesmo como potencialmente benéfico para a sua saúde.

Entretanto, é sabido que os ácidos palmítico e láurico elevam o colesterol total. Mas eis aqui o que é raramente relatado: os estudos mostram que, embora ambos ácidos graxos saturados elevem o colesterol LDL (“ruim”), eles também elevam o colesterol HDL (“bom”) tanto quanto, quando não mais. E isto diminui o risco de doença cardíaca. Isto ocorre porque acredita-se que o colesterol LDL deposita-se em placas nas suas artérias, enquanto o HDL as remove. Assim, quando se aumenta ambos, na verdade se reduz a proporção de colesterol ruim em relação à do tipo bom. Isto pode explicar por que numerosos estudos relataram que esta proporção LDL/HDL é um preditor melhor de doença cardíaca futura do que o LDL isoladamente.

Tudo isso turva as alegações de Keys de que haveria uma clara conexão entre consumo de gordura saturada, colesterol e doença cardíaca. Se a gordura saturada não eleva o colesterol de uma forma que aumente o risco de doença cardíaca então, de acordo com o método científico, a Hipótese Dieta-Coração deveria ser rejeitada. Entretanto, em 1977, ainda parecia uma ideia promissora.

Este foi o ano em que o Congresso transformou em política de governo a recomendação de uma dieta de baixa gordura (“low-fat”), baseado primariamente na opinião de especialistas que apoiavam a Hipótese Dieta-Coração. Esta decisão encontrou muita crítica e muita resistência na comunidade científica, incluindo a Associação Médica Americana. Afinal, o endosso oficial  a uma dieta low-fat poderia mudar os hábitos alimentares de milhões de americanos, e os efeitos oficiais de tal estratégia eram largamente debatidos e careciam completamente de comprovação.

Nós temos gasto bilhões de dólares de nossos impostos tentando comprovar a Hipótese Dieta-Coração. E, contudo, estudo após estudo tem falhado em fornecer evidências definitivas de que o consumo de gordura saturada leve à doença cardíaca. O exemplo mais recente é a Iniciativa para a Saúde das Mulheres (Women’s Health Initiative - WHI), o maior e mais caro (US$ 725 milhões) estudo governamental de dietas já conduzido. Os resultados, publicados ano passado, mostram que uma dieta pobre em gordura total e em gordura saturada não teve nenhum impacto na redução das taxas de doença cardíaca e de derrame em cerca de 20.000 mulheres que aderiram a este regime por cerca de 8 anos.

Mas este artigo, como muitos outros, subestima seus próprios achados e, invés disso, indica quatro outros estudos que, muitos anos atrás, aparentemente acharam alguma conexão entre gordura saturada e doença cardíaca. Por causa disso, vale a pena dar uma olhada mais de perto em cada um deles.

O Estudo do Hospital dos Veteranos de Los Angeles (Los Angeles VA Hospital Study) de 1969. Este estudo da UCLA, com 850 homens, relatou que aqueles que substituíram gorduras saturadas com gorduras poli-insaturadas tinham menos chance de morrer de doenças cardíacas e AVC num período de 5 anos do que os homens que não alteraram suas dietas. Entretanto, um número maior de homens que mudaram suas dietas morreram de câncer, e a idade média por ocasião da morte foi a mesma em ambos grupos. Além disso, devido a “um esquecimento”, os autores do estudo deixaram de coletar dados cruciais sobre os hábitos de tabagismo de cerca de 100 homens. Por fim, eles também relataram que os homens aderiram à dieta apenas metade do tempo.

O Estudo de Dieta-Coração de Oslo (The Oslo Diet-Heart Study) de 1970. Duzentos homens seguiram uma dieta com baixa gordura saturada por 5 anos enquanto outro grupo comeu como quis. Os que seguiram a dieta tiveram menos ataques cardíacos, mas não houve diferença na mortalidade entre os dois grupos

O Estudo do Hospital Psiquiátrico da Finlândia (The Finnish Mental Hospital Study) de 1979. Este estudo se estendeu de 1959 a 1971 e aparentemente documentou uma redução no índice de doença cardíaca em pacientes psiquiátricos que adotaram uma dieta “redutora de colesterol”. Mas o experimento foi inadequadamente controlado: quase metade dos 700 pacientes aderiu ou desistiu no meio do mesmo, durante os 12 anos de sua duração.

O Estudo de Regressão de Ateroscelrose  de St. Thomas (The St. Thomas’ Atherosclerosis Regression Study) de 1992. Apenas 74 homens completaram este estudo de 3 anos conduzido no hospital St. Thomas, em Londres. O estudo achou uma redução em eventos cardíacos em homens com doença cardíaca já estabelecida que adotaram uma dieta low-fat. Há, entretanto, um GRANDE senão: a dieta prescrita era também restrita em açúcar.

Estes 4 estudos, muito embora tenham falhas graves e sejam minúsculos quando comparados com o Women’s Health Initiative (WHI), são frequentemente citados como a prova definitiva de que as gorduras saturadas causam doença cardíaca. Muitos outros estudos clínicos mais recentes levantam dúvidas sobre a Hipótese Dieta-Coração. Estes 4 estudos precisam ser considerados no contexto de TODOS os estudos realizados.

Em 2000, um grupo internacionalmente reconhecido de cientistas chamado Colaboração Cochrane conduziu uma metanálise (uma análise estatística conjunta de todos os estudos conduzidos com metodologia adequada sobre determinado assunto) da literatura científica sobre dietas “redutoras de colesterol”. Depois de aplicar critérios rigorosos de seleção (219 estudos foram excluídos por serem de má qualidade), o grupo examinou 27 estudos envolvendo mais de 18 mil participantes. Embora os autores tenham concluído que reduzir a gordura na dieta possa ajudar a reduzir doença cardíaca, os dados por eles publicados na verdade mostraram que dietas pobres em gordura saturada não têm nenhum efeito significativo sobre a mortalidade, ou mesmo sobre mortes devidas a ataques cardíacos.

“Eu fiquei desapontado por não termos achado algo mais definitivo” disse Lee Hooper, autor principal da revisão da Cochrane. Se esta análise exaustiva não conseguiu achar evidências sobre os perigos da gordura saturada, diz Hooper, é provavelmente por que os estudos revisados não foram suficientemente longos, ou por que os participantes não reduziram suficientemente seu consumo de gorduras. Evidentemente há uma terceira opção, não mencionada por Hooper: os estudos foram negativos pois a Hipótese Dieta-Coração está errada.

O Dr. Ronald Krauss não diz que as gorduras saturadas são boas para você. “Mas”, ele admite, “nós também não temos evidências convincentes de que são ruins”.

Por 30 anos, o Dr. Krauss - um professor adjunto de ciências nutricionais da Universidade da Califórnia em Berkeley - tem estudado o efeito da dieta e dos lipídios séricos (colesterol, triglicerídeos) nas doenças cardiovasculares. Ele explica que embora alguns estudos indiquem que substituir gorduras saturadas por gorduras insaturadas diminua o risco de doenças cardíacas, isto não significa que as gorduras saturadas levem ao entupimento das artérias. “Isto pode apenas sugerir que as gorduras instauradas são uma opção ainda MAIS saudável do que as saturadas”, diz ele.

Mas há ainda mais. Em 1980, o Dr. Krauss e seus colegas descobriram que o colesterol LDL está longe de ser a simples partícula “ruim” que normalmente pensamos. Na verdade, ela vem em uma série de diferentes tamanhos, conhecidos como “subfrações”. Algumas subfrações de LDL são grandes e “macias”. Outras são pequenas e densas. Esta distinção é importante.

Uma década atrás, pesquisadores canadenses relataram que homens com maior número de partículas de LDL pequenas e densas tinham 4 vezes mais risco de apresentar artérias entupidas do que aqueles com o menor número. Contudo, eles não encontraram a mesma associação com as partículas grande e macias. Tais achados foram subsequentemente confirmados por outros estudos.

Agora, aqui vem a conexão com o assunto da gordura saturada: o Dr. Krauss descobriu que quando as pessoas substituem os carboidratos em sua dieta por gordura - seja ela saturada ou insaturada - o número de partículas pequenas e densas diminui. Isto leva à noção altamente contraintuitiva de que substituir seus cereais matinais com ovos e bacon pode diminuir o seu risco de doença cardíaca.

Os homens, mais do que as mulheres, são predispostos a apresentar partículas de LDL pequenas e densas. Entretanto, tal propensão é extremamente flexível e, de acordo com o Dr. Krauss, pode ser ativada quando as pessoas consomem dietas de alto carboidrato e baixa gordura (high-carb, low-fat); da mesma forma, a propensão de fabricar mais partículas pequenas e densas pode ser desativada quando as pessoas consomem menos carboidartos e mais gorduras, inclusive gorduras saturadas. “Há um pequeno subgrupo de pessoas com alto risco de doenças cardíacas que podem responder bem a uma dieta restrita em gorduras (low-fat)”, diz Krauss. “Mas a esmagadora maioria das pessoas saudáveis parece obter pouquíssimos benefícios destas dietas low-fat, em termos de fatores de risco cardíaco, a não ser que elas também percam peso e façam exercício. E, se a dieta low-fat for também rica em carboidrartos, isto pode na verdade resultar em piora dos lipídios séricos (colesterol, triglicerídeos).

Embora o Dr. Krauss tenha inúmeras publicações e seja altamente respeitado - ele foi duas vezes o presidente do comitê redator das diretrizes sobre dieta da Associação Americana de Cardiologia (AHA) -  as profundas implicações de suas pesquisas não foram amplamente reconhecidas. “Os cientistas acadêmicos acreditam que a gordura saturada é ruim para você”, diz Penny Kris-Etherton, professora emérita de estudos nutricionais na Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State Universitiy), citando como evidência os “vários estudos” que ela acredita que mostram ser isso verdade. Mas nem todos aceitam estes estudos, e estas pessoas são pouco ouvidas. Kris-Etherton admite que “há um tanto de relutância em aceitar evidências que sugiram o contrário”.

Veja, por exemplo, um estudo de 2004 da universidade de Harvard sobre mulheres mais velhas com doença cardíaca já estabelecida. Os pesquisadores descobriram que quanto mais gordura saturada estas mulheres consumiam, menor a chance de que sua condição piorasse. O autor principal, o Dr. Dariush Mozaffarian, um professor assistente da escola de saúde pública de Harvard, lembra que antes de finalmente conseguir publicar o estudo no American Journal of Clinical Nutrition, ele encontrou uma “formidável oposição política” de outras revistas científicas.

“No campo da nutrição, é muito difícil conseguir publicar qualquer coisa que vá contra o dogma estabelecido”, diz Mozaffarian. “O dogma reza que a gordura saturada faz mal mas, ao meu ver, isto não é baseado em evidências inequívocas”. Mozaffarian diz que é fundamental que os cientistas mantenham a mente aberta. “Nossos achados foram surpreendentes até mesmo para nós. E, quando você descobre algo que vai contra o que está estabelecido, isto não deve ser suprimido; ao contrário, deve ser disseminado e estudado ao máximo”.

O viés contra a gordura saturada é mais evidente nos estudos de dietas de baixo carboidrato (dietas low-carb). Muitas versões desta abordagem nutricional são controversas pois não colocam nenhum limite ao consumo de gorduras saturadas. Como resultado, quem defende a Hipótese Dieta-Coração argumenta que as dietas low-carb aumentariam o risco de doenças cardíacas. Mas todas as pesquisas publicadas indicam que este não é o caso. Quando pessoas em dieta low-carb foram comparadas cabeça-a-cabeça com pessoas em dieta low-fat (com restrição de gorduras), aqueles em dieta low-carb tipicamente obtiveram resultados significativamente melhores nos marcadores de doença cardíaca, incluindo partículas de LDL pequeno e denso, razão LDL/HDL e triglicerídeos, que são uma medida da quantidade de gordura circulando no sangue.

Por exemplo, em um estudo de 12 semanas, cientistas da Universidade de Connecticut colocaram homens e mulheres acima do peso em dieta low-carb ou low-fat. Aqueles que seguiram a dieta low-carb consumiram 36 gramas de gordura saturada por dia (22% das calorias totais), o que representa mais do que 3 vezes a quantidade da dieta low-fat. Ainda assim, a despeito deste consumo consideravelmente maior de gordura saturada, os pacientes em dieta low-carb reduziram tanto o seu número de partículas de LDL pequenas e densas quanto sua razão LDL/HDL de forma muito mais significativa do que o grupo que comeu low-fat. Além disso, os triglicerídeos diminuíram em 51% no grupo low carb, contra 19% no grupo low-fat.

Este achado merece ser sublinhado pois, embora o colesterol seja o fator de risco mais citado para doença cardíaca, os níveis de triglicerídeos podem ser igualmente relevantes. Em um estudo de 40 anos de duração na Universidade do Hawaii, os cientistas descobriram que baixos níveis de triglicerídeos na meia-idade eram os melhores preditores de “sobrevida excepcional” - definida como viver até os 85 anos de idade sem nenhuma doença importante.

De acordo com o pesquisador principal Dr. Jeff Volek, dois fatores influenciam a quantidade de gordura que circula por nossas veias. O primeiro, é claro, é a quantidade de gordura que você come. Mas o fator mais importante é menos óbvio. Ocorre que o seu corpo fabrica gordura a partir de carboidratos (carbs). Funciona assim: os carboidratos que você come (particularmente amido e açúcar) são absorvidos e entram na corrente sanguínea como glicose. À medida que aumenta seu consumo de carbs, aumenta também a glicose no seu sangue. Isto faz seu corpo produzir o hormônio insulina. O papel da insulina é retornar a glicose no sangue para valores normais, mas ela também sinaliza ao seu corpo para estocar gordura. Como resultado, seu fígado começa a converter o excesso de açúcar em triglicerídeos (gordura).

Tudo isso ajuda a explicar por que o grupo da dieta low-carb no estudo do Dr. Volek teve maior redução da gordura no sangue. Restringir os carboidratos mantém a insulina baixa, e isto reduz a produção interna de gordura e permite que você queime mais da gordura que come.

Ainda assim, mesmo com todos estes dados emergentes e com toda a falta de suporte científico para a Hipótese Dieta-Coração, as últimas diretrizes de dieta da Associação Americana de Cardiologia (AHA) reduziram a quantidade recomendada de gordura saturada de 10% das calorias diárias para 7% ou menos. “A ideia era encorajar as pessoas a diminuir ainda mais seu consumo de gordura saturada, pois há uma relação linear entre o consumo de gordura saturada e colesterol LDL”, diz Alice H. Lichtenstein que presidiu o comitê de nutrição da AHA que redigiu as recomendações.

E quanto aos achados de Krauss de que nem todos os LDL’s são iguais? Lichtensteinm diz que seu comitê não levou isso em conta, mas poderá no futuro.

Talvez não seja a comida ruim que causa doença cardíaca, mas sim hábitos ruins. Afinal, no estudo de Volek, até mesmo os participantes que seguiram a dieta low-fat - que era alta em carbs - reduziram seus triglicerídeos. “O fator chave é que eles não estavam comendo demais”, diz Volek. “Isto permitiu que os carboidratos fosse utilizados como fonte de energia ao invés de ser convertidos em gordura.” Talvez este seja o ponto mais importante de todos. Se você sempre consome mais calorias do que gasta, e ganha peso com isso, seu risco cardíaco aumentará, comendo gordura saturada, carbs ou ambos.

Mas, se você está levando um estilo de vida saudável - você não está acima do peso, não fuma, faz exercícios regularmente - então a composição de sua dieta pode não ser tão importante. E, baseado nos estudos de Krauss e Volek, uma dieta para perda de peso ou para manutenção de peso nas quais carboidratos são substituídos por gordura - mesmo que saturada - reduzirá os marcadores de risco cardíaco mais do que se você seguisse uma dieta low-fat, high-carb.

“A mensagem não é que você deva se atolar em manteiga, bacon e queijo” diz Volek. “A mensagem é que não há razões científicas pelas quais os alimentos naturais contendo gordura saturada não possam ou não devam fazer parte de uma dieta saudável.

domingo, 6 de julho de 2014

Jornal Zero Hora - Chegou a Hora de Absolver a Gordura

Jornal Zero Hora de hoje, com bela matéria, assinada por Vivian Eichler, inspirada pelo livro The Big Fat Surprise, de Nina Teicholz, e pela capa da última revista Time.

Os PDF's da reportagem podem ser conferidos clicando nas imagens abaixo (a íntegra do texto está mais abaixo):




Não comprou o livro ainda? Esperando o quê??


Revista time (clique na imagem para ler a matéria):


Texto integral da matéria:


Hora de absolvê-la?

Gordura saturada pode não ser a inimiga do coração que a medicina condenou

A ciência tem apontado, e mais e mais médicos têm acatado: a gordura pode ser inocentada por falta de provas

06/07/2014 | 07h01
Gordura saturada pode não ser a inimiga do coração que a medicina condenou Fernando Gomes/Agencia RBS
Gordura saturada, presente sobretudo em alimentos de origem animal, estaria ligada ao acúmulo do "mau colesterol"Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS
Com o canudo de Medicina em mãos, o cardiologista Flavio José Kanter saiu da faculdade, em 1969, munido para a trincheira de combate à gordura saturada. Inimigos do coração, bife, ovos, banha, manteiga e leite integral ameaçavam tanto ou mais a engrenagem vital do que sal, fumo e preguiça.
Fazia oito anos que a American Heart Association e o National Institute of Health, nos Estados Unidos, haviam declarado guerra a esses elementos vistos como causadores de metade das mortes de americanos. A ordem era extirpar a carne vermelha, aniquilar o bacon, banir a nata. Até o então presidente Dwight Eisenhower, que sofreu o primeiro infarto em 1955, entrou para a história da medicina como um porta-voz da guerra ao colesterol (o fato de que fumava quatro maços de cigarro por dia era apenas um parêntese). Assim, a batalha diária contra os alimentos entupidores de veias formou gerações de especialistas e fixou-se à sabedoria popular.
Coma, no máximo, gordura vegetal. Prefira sempre a margarina à manteiga, repetiu Kanter à exaustão, seguindo à risca a cartilha. Repetia. Não repete mais. Ele perfila-se em um batalhão cada vez mais robusto de críticos à vilanização das gorduras saturadas. O fenômeno borbulha pelas laterais da medicina e da nutrição há uma década e ganhou corpo com a publicação de artigos em prestigiadas revistas científicas este ano.
Também turbina essa discussão o livro da jornalista investigativa Nina Teicholz,The Big Fat Surprise: Why Butter, Meat and Cheese Belong in a Healthy Diet (A grande surpresa da gordura: por que manteiga, carne e queijo pertencem a uma dieta saudável, Simon & Shuster, lançado em maio nos EUA, sem edição em português). Com resenhas positivas na The Economist e no Wall Street Journal, a obra serviu de base para uma reportagem de capa em junho na revista Time – uma espécie de farol para o tema desde 1961.
– Vivemos décadas baseados em teoria, mas nunca foi comprovado o que se dizia a respeito das gorduras – afirma o agora veterano Kanter, do corpo clínico do Hospital Moinhos de Vento.
Ele só criou coragem e assumiu sua convicção há três meses em um artigo publicado em ZH e sabe que a maioria de seus colegas não pensa dessa forma. Maturou a ideia durante uma década, motivado pelos nove quilos que perdeu comendo sem restrições de gordura – exceto as trans – e colocando o corpo em movimento. Kanter acredita que a maioria das pessoas pode ingerir 30% das calorias diárias de gordura saturada. É o equivalente a cerca de seis colheres de sopa de manteiga, mas três vezes mais do que preconiza a Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Desde 1970, os americanos cortaram 11% do consumo de gordura saturada, mas aumentaram em 25% o de carboidratos. Mesmo assim, a incidência de obesidade e doenças cardiovasculares cresceu, o que desperta a dúvida: e se o problema não estiver no omelete com bacon pelas manhãs? Esse é o ponto de partida do livro de Nina – inspirado no trabalho do jornalista científico Gary Taubes, autor de artigos críticos publicados no The New York Times e na revista Science e do livroGood Calories, Bad Calories (Alfred A. Knopf, 2007), referência para dietas ricas em gordura e de baixo carboidrato. Durante nove anos, Nina escarafunchou até as notas de rodapé de estudos históricos e listou contradições em suas metodologias.
– Cientistas perceberam que deveriam revisar a ciência. Nessas revisões, concluíram, como eu concluí, que as evidências para condenar a gordura saturada não existem – disse Nina a ZH.
Um desses trabalhos de revisão foi liderado pelo epidemiologista cardiovascular Rajiv Chowdhury, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicado em março na revista Annals of Internal Medicine. Utilizando o método de metanálise, a equipe revisou 72 pesquisas realizadas com 600 mil pessoas em 18 países e não encontrou evidências para sustentar recomendações de restrição extrema a esses lipídeos.
Por e-mail a ZH, Chowdhury conta que o estudo foi realizado porque, após tantos anos de esforços, a associação entre ácidos graxos e risco de doença coronária permanecia obscura, com trabalhos de resultados conflitantes.
Segundo o pesquisador, a gordura saturada definitivamente eleva os níveis de LDL no sangue (o "mau colesterol"), associados a doenças. Mas não da forma como se pensava. Há evidências de que eleva subpartículas menos prejudiciais do LDL, e não as subpartículas "realmente más" – uma constatação que se origina em pesquisas dos anos 1980, do professor Ronald Krauss, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mas que requerem mais testes.
A tendência é, também, não mirar nas gorduras saturadas de forma generalizada, já que cada tipo poderia estar associado a maior ou menor risco de doenças.
– Nossas conclusões não devem servir de carta verde para comer gordura saturada. Há grandes estudos em progresso e que deverão oferecer esclarecimentos definitivos em um futuro próximo. Por enquanto, recomendo prudência e distância da carne vermelha – alerta Chowdhury.
Na Capital, com a serenidade de seus 68 anos, metade deles auscultando corações, Kanter resume o sentimento de apreensão que perpassa pelo seu consultório.
– Precisamos ter humildade para reconhecer. Comparo esta mudança à que Galileu vivenciou quando comprovou que a Terra girava ao redor do Sol. É tão forte, que ainda tenho dificuldade de encará-la – afirma.
Trata-se de uma guerra com inimigos ainda desconhecidos.

Sai um problema, entra outro

Não é de hoje que espocam contradições na seara nutricional. O exemplo clássico é a gema do ovo, que de estricnina na veia passou à condição de elixir
– rico em colesterol in natura, pouco absorvido pelo corpo, e com propriedades nutritivas que o colocam como alimento fundamental, por exemplo, para o desenvolvimento cerebral de crianças.
Em 1999, em meio à reverberação da absolvição do ovo, o escritor Luis Fernando Verissimo questionou quem o indenizaria por todas as gemas douradas que deixou de furar durante anos de medo inútil. "Ainda não liberaram a manteiga, mas é uma questão de tempo", escreveu, em premonição certeira.
As gorduras são essenciais para dar ao corpo energia e sustentar o crescimento das células. Também auxiliam na proteção dos órgãos e na manutenção da temperatura corporal. Afetam a absorção de nutrientes e a produção de hormônios. A questão que divide especialistas é quais fazem bem e quais fazem mal. Essa é a cruzada em que se encontram há décadas.
– Pesquisas que testam os efeitos de alimentos no corpo a longo prazo são de difícil execução. Controlar, com rigor, o que as pessoas comem por um longo período é o mais complicado. Essa é uma das explicações para haver tantas variações – avalia Vera Portal, cardiologista do Hospital de Cardiologia, que pesquisa fatores de risco para doenças cardiovasculares.
A disseminação de orientações baseadas apenas em associações, antes de testes clínicos provarem a relação de causa e efeito, estariam na base desse vaivém.
– Essa ciência fraca, que não estaria pronta para ser "usada", tem nos levado a caminhos errados – lamenta a jornalista Nina Teicholz.
Após idas e vindas, os especialistas agora farejam o vilão do século 21 para a saúde: os açúcares. Para fugir da gordura, a solução encontrada para saciar a população foram os carboidratos (que se transformam em açúcar). Pareciam perfeitos, até menos calóricos. Assim, a pirâmide alimentar americana se estruturou em quase três vezes mais carboidratos do que carne, peixe, ovos, feijão e nozes juntos. E sem ovo no café da manhã, vieram as caixinhas de cereal matinal com leite desnatado, pão com margarina e iogurte light, mas adoçado.
Há consenso de que trocamos um problema por outro. A população está mais obesa, mais diabética, acometida por doenças senis e só não morre ainda mais de infartos fulminantes porque evoluíram as medicações e o diagnóstico.
Os carboidratos seriam os responsáveis por elevar as subpartículas mais nocivas de LDL no sangue, e não as gorduras, apontam estudos. Seguindo essa lógica, há linhagens de nutricionistas e médicos que usam a gordura para combater o açúcar. Receitam aos pacientes a ingestão de proteínas e gorduras saturadas e monoinsaturadas (abacate, nozes, azeite de oliva) para controlar a fome e a gana por doces, pães e massas. É o caminho inverso.
– Aprendi na faculdade que a gordura faz mal, mas, depois, vi que não se tem evidências. O que vai matar a pessoa não é a gordura, mas a combinação churrasco com pão e doce depois – diz Gabriel Carvalho, nutricionista, farmacêutico bioquímico e introdutor da nutrição funcional no Brasil em 1999.
No consultório de Gabriel, o perfil dos pacientes mudou. Em geral, são pessoas que, como ele descreve, acham que sabem cuidar da alimentação. Não comem ovos porque têm colesterol, tomam leite desnatado ou semi, comem pouca carne de gado durante a semana, comem frango, evitam manteiga e nata e estão com colesterol alto. A explicação, segundo ele, são o pão branco ou o "falso integral", massas, bolachas e doces, para citar alguns vilões.
O mesmo observa o médico Jose Carlos Souto, que é urologista e especialista na chamada dieta paleolítica "low-carb":
– O que temos é um fenômeno global de aumento dos alimentos processados e redução da gordura. Como todos acreditam nesse dogma, basta escrever "não contém gordura" ou "zero colesterol", e as pessoas comem. Mas o que elas estão ingerindo é açúcar.
Há um ano e meio, Souto recebeu a empresária Camila Marquetto Saikoski, 28 anos, 1m82cm de altura, 64 quilos, que apresentava uma doença autoimune que reduzia as plaquetas. Tinha triglicerídeos altos e relação entre colesterol bom e ruim que deixava a desejar.
– Eu comia já tudo bem magro. Fugia da gordura como o diabo da cruz, e agora faço o inverso, só que deixei de comer glúten e parei de comer industrializados, só comida 100% natural – diz a empresária, cuja geladeira está recheada de nata, manteiga, carnes e ovos.
Resultado: os exames de Camila mostraram, além da normalização das plaquetas, aumento do HDL no sangue e redução dos triglicerídeos.

Terreno de divergências

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) dá sinais de estar atenta à discussão. Elevou em 2012 sua recomendação máxima de 7% para 10% das calorias diárias obtidas de gordura saturada (algo como dois cubos de bacon frito), uma flexibilização maior do que a das entidades americanas, que restringem a ingestão em 5% a 6%, o equivalente a menos de duas colheres de sopa de manteiga.
– Esse percentual de consumo de gordura saturada que o governo recomenda hoje só foi visto em períodos de fome, no pós-II Guerra Mundial. É muito drástico – afirma a autora do livro The Big Fat Surpise, Nina Teichloz, reconhecendo um grão de mudança pelo fato de, por outro lado, terem deixado de bater na tecla da gordura como número 1 de suas preocupações.
A diretriz brasileira sobre o consumo de gorduras e saúde cardiovascular, publicada em janeiro, cita a discussão e reconhece que a substituição de gordura saturada por carboidratos simples pode ter grande impacto no aumento do risco de doença cardiovascular e diabetes.
– Hoje, se sabe que existe correlação do alto consumo de gordura saturada com problemas do coração. O que a gente não sabe é qual deve ser a ingestão diária. O que questionamos é se precisa ser tão restrito – pondera o presidente do departamento de arterosclerose da SBC e professor da PUCPR, José Rocha Faria Neto.
Mais preocupada com a combinação de macronutrientes do que com a vilania de um tipo de gordura, Carisi Anne Polanczyk, chefe do Centro de Cardiologia do Hospital Moinhos de Vento e presidente da Sociedade de Cardiologia do RS (Socergs), diz que a execração da gordura saturada teve alto efeito psicológico. Houve uma "lavagem cerebral", reconhece.
– Restringíamos muito. Manteiga, nem pensar. Retirava o ovo, carne era permitida em pouquíssima quantidade. Agora, achamos que manteiga é melhor do que margarina. Abandonei o creme vegetal, mesmo os que dizem não conter gordura trans. Os cardiologistas mudaram, e até os pacientes nos cobram em tom de brincadeira. Mas devemos olhar para a alimentação como um todo, não para nutrientes isolados – diz Carisi.
Um dos maiores nomes no Brasil em medicina cardíaca, o cirurgião Fernando Lucchese, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, afirma que não há evidências que o permitam relativizar o conselho de evitar a gordura saturada.
– Corremos o risco de multiplicar doenças cardíacas – afirma Lucchese.
– Pode prescrever a dieta que quiser, mas 15% a 20% (dos pacientes) cumprem à risca. Eles têm conhecimento do tema, mas não abrem mão de comer gordura saturada, por isso a medicação é importante.
Carisi também alerta:
– Provavelmente, a maioria das pessoas pode comer gordura em quantidades razoáveis, mas, para as pessoas que acumulam, o colesterol faz mal. Não adianta passar uma ideia de que todo mundo pode comer tudo. Existe um padrão de alimentação saudável que envolve manter peso e uma combinação de nutrientes que pode ter gordura, desde que (a pessoa) não tenha predisposição de ter colesterol alto.

ENTREVISTA: "Coma mais alimentos verdadeiros"

Por Maria Rita Horn (maria.horn@zerohora.com.br)

Nutricionista francesa que mora no Brasil, Sophie Deram pesquisa transtornos alimentares e neurociência do comportamento

Se fala muito em terrorismo nutricional. O que seria isso?Tenho visto muitos jovens que nunca aprenderam a comer de forma tranquila. Vejo, na verdade, uma grande dificuldade frente a "o que comer". E uma das causas disso é o exagero de regras super-rígidas veiculadas e, às vezes, contraditórias, que fazem com que achemos que comer bem é saber mais e mais de nutrição.

Uma hora não se pode comer gordura ou ovo, um tempo depois, está liberado novamente. Esse vaivém confunde as pessoas?Confunde muito. Antigamente, o perigo era um alimento que era estragado. Hoje, é dito que o que você coloca na boca pode ser muito tóxico. Vejo muito mal-estar com isso. Foi feita uma pesquisa sobre o conhecimento nutricional nos EUA e na França. Nos EUA, todo mundo sabia o que é ômega 3, ômega 6, muitas coisas sobre a gordura. Os franceses sabem apenas que baguete com camembert é muito bom. E o pesquisador questionou: será que saber muito de nutrição não atrapalha a relação com a comida? Provavelmente.

O que temos de mudar na relação com a alimentação para nos sentirmos mais felizes e termos menos problemas com obesidade?Não é porque uma pessoa tem obesidade que está comendo errado. Tenho um paciente que come superbem, mas tem obesidade por problemas de hormônio. Sobre a relação com a comida, em vez de se estressar demais com as regras, tente incluir mais alimentos verdadeiros no seu dia. Beba mais água. Na alimentação de adolescentes brasileiros, 15% das calorias vêm de bebidas doces. Inclua legumes e frutas, em vez de comer tudo pronto em pacotes. Tenho três dicas: parar de fazer dieta, comer alimentos verdadeiros – e aqui não estou dizendo que você não pode comer alimentos da indústria – e cozinhar.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Evento em Natal - agora com possibilidade de assistir online

*** ATUALIZAÇÃO ***

-> As opções de acesso à distância (DVD, online) seguem disponíveis mesmo após o dia 05/07.

***

Em 26 de julho próximo, teremos o evento Medicina, Nutrição e Saúde - uma Perspectiva Ancestral, em Natal - RN.

Nutrição Ancestral

O texto abaixo é de autoria da Daniela Cabral, idealizadora e organizadora do evento (e pessoa que está bancando toda a logística e custos do mesmo). Eu não faço comércio e venda de nada aqui no blog (os anúncios são do google, e rendem alguns centavos a cada clique), mas acho que iniciativas como a da Daniela merecem ser apoiadas, para ajudar a divulgar esse estilo de vida. Ou seja, os valores são para viabilizar o evento, não sou eu quem está vendendo.

***

Pensando em abranger o maior número possível de pessoas e disseminar ao máximo a filosofia paleo a organização do evento em Natal-RN está disponibilizando a venda de mais 3 modalidades de participação:

  • DVD do evento com capa autografada - 39,90
  • Acesso online ao vivo e participação interativa na sessão de debates - 49,90
  • Acesso online + DVD - 59,90

Essas entradas são promocionais e só estarão sendo vendidas até o dia 05 de JULHO. Mesmo que você já seja expert em dieta Lowcarb Paleo, aproveite essa oportunidade para ter um material que você poderá presentear ou emprestar para aqueles que te rodeiam e que precisam mudar de vida.

Abaixo segue a pauta que será abordada em cada uma das palestras e no final haverá uma sessão de debates que, quem escolher comprar o acesso online poderá mandar perguntas para serem respondidas ao vivo.


Palestra 1: Caio Fleury

-Como e desde quando surgiu a Dieta Paleolítica?
-Quais foram os estudos científicos realizados para embasar essa filosofia alimentar?
-Quais as diferenças entre dieta Paleolítica e Dieta Primal?
-Porque não devemos comer grãos?
-O que são antinutrientes?
-Quais os alimentos que fazem parte de uma alimentação Paleolítica
- Dieta Paleolítica como estilo de vida e não dieta passageira.

Palestra 2: Dr. José Carlos Souto

-Como surgiu o pânico da gordura no mundo e as diretrizes nutricionais atuais?
-Qual a diferença entre gordura animal e vegetal?
-Quais estudos científicos que comprovam que consumir gordura animal não faz mal?
-Se não é a gordura, quais são as causas da doença cardíaca?
-Se a pessoa tem gordura no fígado ou retirou a vesícula biliar pode comer gordura?
-O que esperar dos exames de sangue?
-Depois de quanto tempo de alimentação deve-se avaliar o estado geral de saúde?
-Qual o papel dos carboidratos no controle da insulina e leptina.
-O que é cetose e cetoadaptação?
-Quais os benefícios de uma alimentação Paleolítica no geral e Paleo-Lowcarb?

Palestra 3: Polyana Freitas

- Quanto de carboidrato eu devo comer por dia, se:
* Quero perder peso mas não estou doente.
* Sou magro, mas quero fazer Paleo para ser saudável.
*Tenho sobrepeso e síndrome metabólica, diabetes...
*Sou atleta ou pratico exercício regularmente.
-É possível ganhar massa muscular fazendo paleo?
-Para quem pode comer frutas e tubérculos, qual o melhor horário do dia?
-Quais as melhores frutas?
-Se eu estou na rua e não me preparei levando um lanche, o que posso comprar em lanchonetes ou lojas de conveniência?
-Quais as melhores farinhas para fazer receitas?
-O que são probióticos e prebióticos? Como consumi-los?
-Gestantes, Idosos e Crianças podem fazer Paleo?
-Sou nutricionistas e quero prescrever Paleo para meus pacientes, qual a melhor abordagem?

Lembrando novamente que não haverá venda do DVD após o evento, então corra e garanta o seu em www.eventioz.com/nutricaoancestral

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Karl Popper e a fada do dente


“Never let the truth get in the way of a good story.”
― Mark Twain

"He uses statistics as a drunken man uses lamp-posts...for support rather than illumination."
―Andrew Lang (1844-1912) Scottish poet, novelist and literary critic

Eis que recebo a seguinte pergunta de uma leitora do blog:
"Estava lendo um livro (não diretamente relacionado à alimentação) e me deparei com este trecho: "David Cummings e sua equipe mostraram que proteína e açúcar suprimem a grelina, provocando uma rápida diminuição de 70% no hormônio da fome, enquanto a gordura faz os níveis de grelina caírem mais lentamente e apenas cerca de 50%. Os pesquisadores sugerem que essa fraca supressão da grelina por alimentos altamente gordurosos pode ser um dos mecanismos que determinam o aumento de peso causado por dietas com elevados teores de gordura." (Jennifer Ackerman, A melhor hora pra você). Essa pesquisa tem algum fundamento? Não me pareceu coerente o açúcar reduzir o hormônio da fome a níveis menores do que a gordura, que nos deixa saciados por muito mais tempo."

Isso me lembrou, imediatamente, do conceito de "ciência da fada do dente", de Harriet Hall:
"You could measure how much money the Tooth Fairy leaves under the pillow, whether she leaves more cash for the first or last tooth, whether the payoff is greater if you leave the tooth in a plastic baggie versus wrapped in Kleenex. You can get all kinds of good data that is reproducible and statistically significant. Yes, you have learned something. But you haven’t learned what you think you’ve learned, because you haven’t bothered to establish whether the Tooth Fairy really exists."
Tradução livre: "Você poderia medir quanto dinheiro a fada do dente deixa em baixo do travesseiro, se ela deixa mais dinheiro para o primeiro ou para o último dente perdido, se a recompensa é maior para o dente deixado em um saquinho plástico ou enrolado em um guardanapo. Você pode conseguir montes de dados, reprodutíveis e estatisticamente significativos. Sim, você aprendeu algo. Mas você não aprendeu aquilo que você acha que aprendeu, pois você não se preocupou em estabelecer se a fada do dente realmente existe".

Antes de analisar todos os dados sobre a fada do dente, não custa verificar PRIMEIRO se ela EXISTE.

Você pode medir a grelina após o consumo de carboidratos, proteína e gordura para ver por que uma dieta com mais gordura engorda. Mas ANTES, convém verificar SE uma dieta com gordura engorda!!! O que os DADOS, a REALIDADE, enfim, essas coisas inconvenientes dizem?

Para entender a magnitude das evidências empíricas que demonstram a realidade de que dietas LCHF emagrecem, em média, o DOBRO do que as dietas de baixa caloria e baixa gordura, clique aqui (mais detalhes aqui), ou aqui.

Ou seja, o autor que nossa leitora transcreveu exemplifica de forma, digamos, pitoresca, um caso EXEMPLAR de ciência da fada do dente: explicações complexas para um fenômeno fictício.

“Never let the truth get in the way of a good story.”
― Mark Twain
Adaptado à nossa situação, a sarcástica citação de Mark Twain seria o equivalente a dizer: "jamais deixe que meros fatos atrapalhem a sua bela teoria"

Karl Popper, o grande filósofo da ciência, explica a relação entre os fatos empíricos e as nossas teorias. Conforma a Wikipedia:

"Popper argumentou que a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efetuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos fatos.
O que a experiência e as observações do mundo real podem e devem tentar fazer é encontrar provas da falsidade daquela teoria. Este processo de confronto da teoria com as observações poderá provar a falsidade da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenômeno em análise. (Ver Falseabilidade). Em outras palavras, uma teoria científica pode ser falsificada por uma única observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá garantir que a veracidade de uma teoria científica seja eterna e imutável."

Já analisamos a pergunta da leitora à luz da "ciência da fada do dente". Vamos rever à luz de Karl Popper:

1) Os autores postulam que as diferentes alterações na grelina provocadas por carboidratos, proteínas e gorduras explicam o fato de que dietas de alta gordura produzem ganho de peso.
2) no "confronto da teoria com observações", observa-se que um dos postulados (as alterações diferenciais de grelina) é empiricamente correta (ao menos por hora), mas que as pessoas que consomem dietas ricas em gordura e pobres em carboidratos são, em média, mais MAGRAS do que as demais, em TODOS os estudos que já foram conduzidos sobre o assunto.
3) Então, nas palavras de Popper, "Neste processo de confronto da teoria com as observações poder-se-á provar a falsidade da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenômeno em análise".

É assim que a ciência funciona. Os fatos têm precedência. O resto, é teoria da fada do dente.

Certa feita escrevi uma dessas postagens inspiradas, cuja leitura recomendo como tratamento da insônia: Ptolomeu, os epiciclos e as calorias. A postagem ilustra bem o tema de que hora tratamos.

***

O PARADOXO DOS CAMUNDONGOS GORDOS

Recebi este email de outra leitora:
"Dr. Souto, estou fazendo um curso sobre Síndrome Metabólica e foi falado que a gordura saturada aumenta a resistência à insulina (spoiler alert: não é verdade - ver no final dessa postagem). Vi um artigo da Unicamp dizendo que a gordura saturada provoca uma inflamação do hipotálamo levando a resistência à insulina, por liberar citocinas inflamatórias. Estou bem insegura quanto ao consumo desta gordura depois de ter acesso a estas informações."
Na verdade, esse é apenas UM email, mas eu devo ter recebido uns dez emails semelhantes. O motivo de tantos emails é um estudo, conduzido em camundongos.

Minha resposta foi:

"Dois problemas. 1) camundongos são animais muito diferentes de nós no que diz respeito à dieta. Eles, por exemplo, são adaptados justamente a comer aquilo a que nós não somos: grãos!! Lembre-se, eles são ROEDORES, seres que efetivamente conseguem comer sementes sem processá-las antes. E eles NÃO são carnívoros, de modo que dar bastante gordura animal para um ser cuja dieta básica é grãos e vegetais pode não ser uma boa, pelo MESMO motivo que dar muitos grãos e pouca gordura animal para um ser humano também não faz sentido. 2) O coordenador do estudo já parte de uma premissa completamente errada: "É sabido que quem ingere muita gordura ganha peso". É sabido por QUEM, cara-pálida?? Me mostre UM estudo em humanos em que isso tenha sido demonstrado. TODOS os estudos demonstram o OPOSTO. Se você já parte da conclusão, é fácil montar experimentos que confirmem sua hipótese. O processo científico é feito ao contrário. Parte-se de uma hipótese, e monta-se um experimento para tentar provar que a hipótese é falsa. Se a hipótese sobreviver, ela fica mais forte. Procure no blog os estudos que realmente importam, os prospetivos randomizados feitos em humanos. Compre os livros do Taubes, e você encontrará DEZENAS de estudos em camundongos que contradizem este aí. E ONDE ESTÁ o braço de dieta com mais gordura e menos carboidrato? Pois há estudos em roedores mostrando benefícios de uma dieta com menos carbs. E a dieta que mais engorda e vicia os bichos... adivinhou, é a com alto açúcar, e Yudkin já havia estudado isso na década de 50. Mas se você parte do PRINCÍPIO que as gorduras saturadas são más, e desenha seu experimento para testar apenas isso, você achará o que quer achar. Se sua única ferramenta é um martelo, tudo é prego."
Nesta postagem (http://lowcarb-paleo.blogspot.com.br/2013/12/o-figado.html), há um outro detalhe - o tipo de dieta de alta gordura que engorda roedores é uma dieta inflamatória, pelo tipo de gordura utilizada e por ser nutricionalmente deficiente:

"Uma coisa que confunde quem é novo na área é o seguinte: embora todos os estudos em roedores mostrem que reduzir os carboidratos e/ou aumentar as proteínas seja benéfico para o fígado (e para os rins, e para a síndrome metabólica), há vários estudos em roedores nos quais uma dieta de alta gordura INDUZ esteatose, resistência à insulina e até mesmo obesidade. Isso contrasta radicalmente com os efeitos das mesmas dietas LCHF em humanos. Se, por um lado, é verdade que roedores têm uma dieta natural muito diferente da nossa (grãos, por exemplo, fazem parte da dieta normal destes animais, que são virtualmente herbívoros na natureza, não tendo evoluído comendo carne gorda portanto), por outro lado é importante saber que as dietas que são fornecidas aos animais de laboratório são dietas sintéticas comercialmente disponíveis. Uma dieta de alta gordura para camundongos, por exemplo, não é feita com manteiga de vacas alimentadas com pasto e ovos de galinhas caipira. Isto fica bem demonstrado neste fascinante estudo no qual os pesquisadores descobriram que dietas de alta gordura, baixa proteína e baixíssimo carboidrato produzem acúmulo de gordura no fígado de roedores. Aumentar a quantidade de proteínas na dieta protege o fígado até certo ponto, mas o que realmente faz diferença é a presença ou ausência de COLINA na dieta. A colina está normalmente presente nas dietas LCHF de humanos, pois faz parte da gordura animal oriunda de comida de verdade, mas está AUSENTE das dietas LCHF sintéticas oferecidas aos roedores. Esta dieta deficiente em colina provoca disfunção das mitocôndrias, que perdem a capacidade de oxidar adequadamente as gorduras, levando à acumulação das mesmas nas células hepáticas (e isso é agravado pela deficiência de proteínas na dieta). A reintrodução da colina na dieta dos roedores eliminou o efeito deletério da dieta LCHF sobre o fígado dos roedores. (Schugar, R.C. et al., 2013. Role of Choline Deficiency in the Fatty Liver Phenotype of Mice Fed a Low Protein, Very Low Carbohydrate Ketogenic Diet. PLoS ONE, 8(8), p.e74806. Available at:http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0074806). Ou seja, não era a gordura na dieta dos animais que lhes prejudicava, mas a ausência de colina (que, na comida de verdade, estaria presente). E quais as maiores fonte de colina na dieta humana? Ovos (gema!) e carnes gordas.

Outro detalhe importante é que óleos poliinsaturados ômega-6 são especialmente eficazes em produzir o acúmulo de gordura no fígado e consequente resistência à insulina. Sabedores desse fato, pesquisadores induziram disfunção hepática em ratos associando álcool e óleo de milho em suas dietas. Quando o óleo de milho foi substituído por gordura saturada, o fígado dos animais melhorou (Zhong, W. et al., 2013. Dietary fat sources differentially modulate intestinal barrier and hepatic inflammation in alcohol-induced liver injury in rats.American journal of physiology. Gastrointestinal and liver physiology, 305(12), pp.G919–932.)
Os autores salientam que as gorduras poliinsaturadas (óleos extraídos de sementes) são frágeis, oxidam-se facilmente, o que aumenta muito os danos oxidativos. Já as gorduras saturadas, especialmente as de cadeia média (óleo de coco por exemplo), são muito mais estáveis, reduzindo o stress oxidativo."
Ok, eu sei que a explicação foi comprida. A versão curta, à luz da "ciência da fada do dente" seria a seguinte:

1) Camundongos que comem gordura saturada engordam;
2) Pessoas que comem gordura (saturada ou não), emagrecem;
3) Isso não significa que, a partir da publicação desse estudo, as pessoas que comem gordura saturada passarão a engordar. Isso significa que pessoas não são camundongos.

Numa análise Popperiana, o raciocínio seria:

 - Hipótese 1: gordura saturada produz inflamação no hipotálamo de ratos que os levam a engordar
 - Hipótese 2: o mesmo ocorrerá com seres humanos
-> experimento conduzido em camundongos deu suporte (não refutou) a hipótese 1
-> experimentos (DEZENAS) conduzidos em seres humanos REFUTAM a hipótese 2.
-> resultado: é necessário reanalisar a teoria para sabermos onde erramos (camundongos são herbívoros, a ração comercial é feita com óleos refinados e é deficiente em colina, etc), e postularmos novas hipóteses (tais como a desse artigo) a serem testadas em futuros experimentos.

***
Bônus

Para quem teve paciência de ler até aqui, segue um rápido presente: artigo clássico, de 2003, prospectivo e randomizado, publicado no New England Journal of Medicine:




Traduzindo: "...os pacientes em dieta low carb tiveram o maior AUMENTO da sensibilidade à insulina do que aqueles em dieta de baixa gordura (aumento de 6% na sensibilidade à insulina em low carb versus aumento de 3% da RESISTÊNCIA à insulina na dieta de baixa gordura)".

Mas o pessoal da UNICAMP disse que a gordura saturada aumenta a resistência à insulina... Bem, está na hora de chamar a fada do dente!